Opinião: Que importância tem a EFACEC para os portugueses e para Portugal?

Red Magic 6S

Ontem foi um dia histórico, logo depois do 25 de abril de 1974, onde se deram inúmeras nacionalizações em todo o país. O governo anunciou que iria proceder à nacionalização da empresa que conta com praticamente uma centena de anos.

A portuguesa Efacec conta com uma vertente fortemente exportadora e presença internacional em mais de 65 países. Os quase 70 anos de marca consolidada partem da antiga “A Moderna” Sociedade de Serração Mecânica, criada em 1905 com algumas das mais emblemáticas personalidades da época. Foi a partir de 1921 que se começava a ditar o futuro da Efacec com a alteração de “A Moderna” para Electro-Moderna, Lda., cujo foco era a produção de motores, geradores, transformadores e acessórios elétricos — inédito em Portugal naquele tempo.

A construção da marca Efacec deu-se a 12 de Agosto de 1948 quando se passaram a chamar EFME (Empresa Fabril de Máquinas Elétricas) passando a contar com um parceiro francês, os ACEC (Ateliers de Constructions Électriques de Charleroi) que, em conjunto com a famosa CUF (Companhia União Fabril) detinham 45% e onde a anterior Electro-Moderna ficava com apenas 20%. Os outros 15% ficaram entre acionistas privados. A marca adota o nome atual em 1962, passando a chamar-se EFACEC — Empresa Fabril de Máquinas Eléctricas, com a saída da CUF do capital da empresa, passando a ACEC a assumir o controlo maioritário da empresa. Esta foi uma das primeiras empresas portuguesas a ser cotada na Bolsa de Valores de Lisboa. Com a entrada na CEE, os ACEC saem do capital social da empresa, iniciando um crescimento praticamente contínuo até agora.

Os últimos problemas na empresa começaram com a entrada de Isabel do Santos no capital social da empresa portuguesa — que foi recentemente alvo de um arresto em Angola e Portugal no âmbito do caso “Luanda Leaks”. A entrada de Isabel dos Santos foi motivada pela quase falência da empresa no pós-crise do Subprime de 2008 que afetou diversos países ao redor do mundo. Em 2015, a Winterfell Industries adquiriu a maioria do capital da Efacec Power Solutions a fim de salvar a empresa da quase iminente falência. Ainda neste ano, outra empresa da empresária angolana procedeu à compra de 40% do capital da Winterfell Industries — a Niara Holding, sedeada no Funchal, Madeira. Isabel dos Santos é alvo de investigações por fraude fiscal, branqueamento de capitais e desvios de dinheiros públicos angolanos.

O recente arresto levou a um descrédito das instituições bancárias portuguesas na idoneidade da empresa e das suas contas levando a um bloqueio dos créditos e dinheiros da empresa que levaram quase cinco anos depois, a empresa ao vermelho. Face a isto, Isabel dos Santos foi obrigada a vender a sua posição na empresa, através da empresa sedeada em Malta, Winterfell Industries. Consequência da mais recente pandemia de coronavírus levou a grande empresa (presente em mais de 65 países) a mitigar as suas operações, passando a operar a 40%, com muitos funcionários em lay-off. Com isto, as contas e as obrigações da empresa para com os seus stakeholders tem vindo a deteriorar-se que, na ausência de confiança na instituição levou a que o estado tivesse de adquirir a posição da luso-angolana a fim de salvar a empresa e garantir um empréstimo para que esta possa proceder a uma restruturação.

Mas porque é a Efacec tão tecnologica e economicamente importante?

O sucesso da empresa portuguesa é tão grande no mundo da engenharia, especialmente na engenharia eletrotécnica que, a empresa já ganhou diversos prémios e participações em inúmeros programas tecnológicos e de desenvolvimento tecnológico.

Dentro do portefólio da empresa estão inovações como, o projeto HbioS (em 2011) com parceria da Universidade Católica para a remoção do H2S do biogás para melhorar o transporte urbano; em 2012, o EFAiCharge marcou o início de uma das maiores iniciativas da Efacec, uma infraestrutura de carregamento de veículos elétricos que promovem a mobilidade sustentável a veículos elétricos e híbridos plug-in; o projeto QT1, o desenvolvimento de transformadores de baixo ruído que cumpre a restritiva legislação acústica atualmente em vigor; outra grande inovação foi o desenvolvimento de um autocarro urbano 100% elétrico — marcando o início de um mundo novo para a eletrificação e para a mobilidade sustentável; em 2016, formaram-se diversas parcerias entre a Efacec e a EDP Distribuição para o desenvolvimento de soluções elétricas de transformação de energia elétrica.

Por outro lado, podemos destacar outros projetos na área da investigação espacial, entre eles, o conhecido laboratório espacial “Columbus”, que possui equipamento espacial feito em Portugal, certificado pela NASA e pela ESA (Agência Espacial Europeia), tendo sido integrado numa missão lançada no Cabo Canaveral em direção à ISS (a Estação Espacial Internacional). Ainda neste campo, parte da tecnologia levada a Marte pela agência europeia teve mão da portuguesa Efacec, parte da tecnologia utilizada em conjunto com outras importantes empresas — Active Space Technologies, Critical Software e Rotacional —, todas estas associadas ao desenvolvimento ou de hardware ou de software.

Estas são as principais razões para a importância que tem esta empresa no seio do domínio português e da propaganda ao nível da engenharia no exterior, atribuindo muito mais credibilidade a Portugal, nesta área que temos liderado dentro das nossas possibilidades e limitações físicas e geográficas. As apostas na sustentabilidade e na mobilidade elétrica são uma das imagens de marca da Efacec no exterior, especialmente na mobilidade elétrica privada — com a construção de transformadores elétricos para o carregamento de automóveis, ou por exemplo, para a construção de transformadores de alta e baixa tensão, com tecnologias vanguardistas que apenas a Efacec faz de melhor nesta área. O caracter exportador da empresa beneficia Portugal de diversas formas, pois ao constituir capitais em território nacional, paga os seus impostos e tributações em território nacional, bem como, emprega milhares de trabalhadores portugueses que possuem famílias e que necessitam deste trabalho (muitos com vários anos já ao lado da empresa).

O investimento do Estado através da nacionalização vem permitir à Efacec continuar a ser líder neste segmento, mantendo-se como um dos principais polos de investigação tecnológica que permite aos atuais consumidores de veículos elétricos, por exemplo, continuar a adquirir modelos cada vez melhores e de mais rápida possibilidade de carregamento e em menor tempo. As parcerias com inúmeras universidades e politécnicos permite em grande medida desenvolver cada vez melhores técnicos e engenheiros portugueses que farão parte do mercado de trabalho, consolidando o trabalho português pelo mundo – garantindo assim também uma maior confiança para o estabelecimento de novas empresas em território nacional.

O que muda agora com a nacionalização?

Através da nacionalização, o Estado é obrigado legalmente ao pagamento de uma indemnização ao acionista que possuía anteriormente o volume da empresa. Neste caso, face aos últimos acontecimentos, o Estado português adquiriu a Efacec num total de 71,73% por um valor inferior ao que adquiriu a angolana, Isabel dos Santos (200 milhões de euros, na altura).

A administração da empresa, mostrou o seu apoio para com o governo socialista que garantiu que a empresa manterá a sua estrutura administrativa, encontrando nela o rumo da empresa que progredia até à data, levantando-se da forte crise de 2008. “A intervenção do Estado deve ainda ser feita por período restrito no tempo e com vista à resolução temporária da respetiva situação, estando prevista a sua imediata reprivatização, a executar no mais curto prazo possível”, assegura o Ministro da Economia, Pedro Siza Vieira. Seja curto ou longo, esperemos que através desta alteração seja possível levantar esta que é uma das principais empresas portuguesas no setor da energia.

Esperemos que tudo isto passe rapidamente, numa altura em que o Governo pondera também nacionalizar a companhia de aviação portuguesa TAP, que também tem estado a sofrer os nefastos efeitos da pandemia. Continue a acompanhar-nos na nossa habitual atualização do mundo da tecnologia.

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