Depois de meses de fugas de informação e expectativas em alta, tudo indica que a OnePlus terá decidido travar o lançamento do Open 2. O que parecia ser a resposta mais musculada da marca ao Galaxy Z Fold da Samsung — com foco em autonomia, potência e um conjunto fotográfico ambicioso — não deverá chegar às lojas.
Para quem acompanha o mercado, a decisão é um sinal claro das dificuldades que persistem no universo dos smartphones dobráveis: margens finas, custos elevados e uma procura que cresce menos do que o entusiasmo mediático sugere.
Porque é que um dobrável tão promissor ficou pelo caminho
Há várias pistas que ajudam a explicar o recuo. Por um lado, o ecossistema da BBK (grupo que integra OnePlus e OPPO) tem historial de partilha de plataformas, fornecedores e I&D. Lançar, no mesmo trimestre, dois dobráveis praticamente gémeos seria um risco comercial desnecessário. Ao que tudo indica, o Find N de nova geração da OPPO avançou com uma ficha técnica muito próxima à do Open 2, o que torna redundante uma segunda proposta que canibalizaria recursos de marketing e produção.
Por outro lado, os números não mentem: mesmo com a Samsung a liderar há anos e a puxar pela categoria, os volumes de vendas dos dobráveis continuam muito abaixo dos smartphones “clássicos”. O investimento para afinar dobradiças, controlar tolerâncias e certificar resistência à água é enorme; o retorno, para já, nem tanto. O Open 2 podia ser um excelente produto e, ainda assim, não justificar o esforço adicional.
A visão da OnePlus: bateria maior, bisagra refinada, câmara com ambição
O plano da OnePlus para a segunda geração era coerente com o histórico da marca: atacar pontos fracos do setor com hardware agressivo. A ideia de integrar uma bateria de cerca de 6.000 mAh, recorrendo a células de silício-carbono mais densas, era provavelmente o elemento mais diferenciador. Numa categoria onde a autonomia continua a ser “calcanhar de Aquiles”, prometer um dia de uso intenso sem ansiedade pelo carregador seria um trunfo real contra o Galaxy Z Fold.
A potência também estava alinhada com o topo do mercado, com o Snapdragon 8 Elite a liderar a orquestra, acompanhado por memória generosa e armazenamento amplo. Nas ecrãs, a OnePlus mantinha a receita vencedora: um painel interno amplo ao estilo “livro” e um ecrã externo mais utilizável no dia a dia, trabalhando numa dobradiça revista para reduzir a marca do vinco — uma das críticas mais recorrentes a esta tipologia.
Na fotografia, o alinhamento apontava para um sensor principal Sony de 50 MP com estabilização, um periscópio de longo alcance e um ultra grande-angular de alta resolução. A estratégia de abdicar de um teleobjetiva secundário de 2x para apostar num único tele mais “longo” sugere confiança no processamento digital para cobrir as distâncias intermédias. É uma opção ousada que simplifica o módulo e reduz peso, mas podia dividir opiniões entre entusiastas.
Entre a engenharia e a realidade do mercado
Nem tudo eram boas notícias no caderno técnico. A certificação de resistência à água parecia ficar aquém das referências da Samsung, e embora o carregamento rápido por cabo e por indução fosse competitivo, não representava uma viragem face ao que a própria OnePlus já oferece noutros topos de gama. Em termos de espessura, as metas mantinham-se próximas da geração anterior: respeitáveis, mas sem um salto que reescrevesse as regras.
É precisamente aqui que mora o dilema dos dobráveis em 2025: melhorar aquilo que já é muito bom exige investimentos desproporcionais, e o consumidor médio — fora do nicho entusiasta — olha para o preço antes de olhar para os milímetros a menos no vinco ou para a nova liga na dobradiça. Para a OnePlus, canalizar recursos para linhas com maior rotação pode, simplesmente, fazer mais sentido.
O que significa para os utilizadores e para a concorrência
Para quem estava à espera de migrar do primeiro Open para a nova geração, a decisão é um balde de água fria. O Open original, lançado em 2023, envelheceu com dignidade, sobretudo na qualidade de ecrã e no software, mas começa a acusar o passar do tempo em autonomia e processamento face aos rivais mais recentes. Sem um Open 2 no horizonte próximo, quem quer um dobrável “livro” terá de olhar para a Samsung, para as propostas da OPPO nalguns mercados, ou para players chineses menos presentes oficialmente na Europa.
Do lado da Samsung, a ausência de um novo OnePlus alivia a pressão direta. Ainda assim, a fasquia para as próximas gerações do Galaxy Z Fold não baixa: a autonomia continua a ser a fronteira onde o utilizador sente a diferença, e a concorrência — mesmo dispersa — já percebeu isso.
E agora? Três cenários prováveis para a OnePlus
- Consolidação: a marca foca-se nos séries principais e em dobráveis “tipo concha” com custos mais controlados, onde a procura tem sido mais saudável.
- Reentrada em 2026: com uma plataforma de nova geração e uma estratégia afinada, regressa quando os custos de produção baixarem e a procura for mais previsível.
- Cooperação mais estreita com a OPPO: partilha ainda mais recursos e diferencia os produtos pelo software, ecossistema e posicionamento regional, evitando duplicação de hardware.
Seja qual for o caminho, uma coisa é clara: a OnePlus não perdeu a capacidade de surpreender em engenharia. O desafio é transformar esse talento em produtos com tração comercial consistente num segmento que ainda procura o seu ponto de equilíbrio.
Conclusão: um “não” estratégico para preparar um “sim” no momento certo
O cancelamento do OnePlus Open 2 não é um fracasso técnico; é um ajuste à realidade do mercado. A proposta mostrava ambição em autonomia, fotografia e experiência de utilização, mas ficava presa na teia de custos, sobreposição interna e um público que, por enquanto, continua mais racional do que emocional quando olha para dobráveis.
Para a OnePlus, recuar agora pode ser a melhor forma de avançar depois — com um produto mais afinado, mais sustentável e, finalmente, mais competitivo.
Fonte: GSMArena





























