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Home/Destaques/Inteligência Artificial em brinquedos: Não estaremos a dar um passo maior que a perna?
Destaques

Inteligência Artificial em brinquedos: Não estaremos a dar um passo maior que a perna?

Tiago Carvalho
23 de Janeiro de 2026 4 Min Read

G
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Um peluche falante chamado Kumma tornou-se o símbolo de um problema maior: a pressa em levar a inteligência artificial para o quarto das crianças antes de se perceber o que isso implica. Testes independentes a este brinquedo mostraram respostas impróprias desde instruções perigosas a conversas de teor sexual e desencadearam suspensões, auditorias e muita perplexidade.

O fabricante, FoloToy, tinha licenciado tecnologia de um grande fornecedor de modelos de linguagem, e entretanto travou vendas para rever segurança. Depois, voltou ao mercado com filtros mais rigorosos. Pelo caminho, ficou uma pergunta sem resposta simples: quando um brinquedo com IA falha, quem responde?

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Para o consumidor, é tentador pensar que um urso que “fala como um chatbot famoso” é exceção. Na realidade, não é. A indústria tecnológica cresce através de acordos de licenciamento que permitem a marcas sem nome de peso integrar modelos de linguagem nos seus produtos. É rápido, barato e escalável.

Mas também cria camadas de opacidade: políticas de marca e de serviços de alguns fornecedores limitam o que os parceiros podem dizer publicamente sobre o motor de IA que usam. Para pais, cuidadores e reguladores, isso complica a avaliação do risco. Sem saber que modelo está “dentro” do brinquedo, é mais difícil comparar incidentes, exigir correções ou até escolher outro produto com melhores salvaguardas.

ChatGPT nos brinquedos: o que os pais devem saber,

Os grandes fornecedores de IA exigem, em regra, que quem usa os seus modelos para crianças cumpra leis de privacidade e políticas anticontenúdo nocivo. Há ferramentas de moderação e equipas comerciais que acompanham implementações. Na prática, porém, os incentivos nem sempre alinham: um parceiro pode falhar na configuração, o filtro pode ser contornado por uma pergunta criativa ou a atualização de segurança chega tarde.

Especialistas jurídicos defendem programas de parceiros “avaliados”, com certificação e testes obrigatórios antes da entrada no mercado, e auditorias regulares. É a diferença entre prometer segurança num contrato e prová-la numa sandbox com casos de teste difíceis especialmente quando o público são utilizadores vulneráveis.

Aqui começa a zona cinzenta. Muitos contratos de serviços de IA colocam a responsabilidade final no integrador do produto (neste caso, o fabricante do brinquedo). Também é frequente ver cláusulas que limitam a responsabilidade do fornecedor de IA e afastam ações coletivas. Do lado do direito do consumo, a bitola não é “risco zero”, mas “precauções razoáveis”.

O problema: o dano num brinquedo conversacional pode ser psicológico, de privacidade ou de confiança não é só físico. E o direito tradicional de segurança de produtos olha sobretudo para lesões físicas. Acresce que a IA é probabilística: dois utilizadores podem obter respostas muito diferentes. Determinar culpa e nexo causal torna-se mais complexo.

A inquietação com brinquedos com IA não é exclusiva de um país. Nos EUA, grupos de defesa do consumidor pressionaram antes da época de compras, surgiram iniciativas legislativas a pedir moratórias para chatbots em brinquedos, e entidades de referência desaconselharam estes produtos para idades muito baixas. Na Europa, o enquadramento cruza-se com várias peças: o AI Act introduz obrigações de gestão de risco, documentação e transparência, sobretudo quando há interação com menores; o RGPD e as regras sobre consentimento parental e minimização de dados são críticos; e a Diretiva de Segurança dos Brinquedos exige avaliação de riscos e marcação CE. Na prática, qualquer marca que venda na UE terá de provar que o brinquedo respeita privacidade by design, tem controlos parentais eficazes e mecanismos de desligar a recolha de dados, entre outras salvaguardas.

Depois das críticas, o fabricante reforçou regras de idade, apertou filtros e colocou “assuntos proíbidos” mais claros. Testes posteriores mostraram que perguntas sensíveis já eram rejeitadas. É o mínimo indispensável. O que não ficou claro foi a arquitetura real: mesmo após uma suspensão anunciada do acesso ao fornecedor de IA, alguns utilizadores reportaram que continuavam a ver opções de modelos populares no menu do brinquedo. Falta de atualização? Cache? Uma camada intermédia? Sem transparência técnica, é impossível confirmar. E sem isso, pais e investigadores não conseguem associar rapidamente incidentes a um mesmo modelo ou fornecedor elemento-chave para correções coordenadas.

Enquanto as regras e as práticas maduras não chegam, o melhor é decidir com critério. Procure:

  • Transparência técnica: o fabricante identifica o modelo de IA, a política de dados e a localização do processamento (dispositivo vs. nuvem).
  • Controlo parental granular: blocos de temas, horários, lista de contactos e registo de atividade acessível ao adulto.
  • Privacidade by default: recolha mínima, anonimização, possibilidade de optar por não partilhar dados para treino e botão físico de microfone/ligação.
  • Atualizações e auditorias: histórico público de patches de segurança e testes por terceiros.
  • Modo offline significativo: funcionalidades básicas sem ligação permanente à internet.
    Se não encontrar isto comunicado de forma clara, o melhor brinquedo inteligente pode ser, por agora, o que fica na prateleira.

Fonte: Mashable

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