A Google começou a testar a inclusão de anúncios diretamente nas respostas geradas pelo AI Mode, o seu novo formato de pesquisa com inteligência artificial. A mudança ainda é experimental, mas já está a mexer com a indústria: pela primeira vez, a publicidade deixa de viver nos módulos tradicionais da página e passa a integrar a própria conversa com o utilizador. Em termos simples, o anúncio deixa de ser um bloco separado e aproxima-se do raciocínio que o sistema apresenta como resposta.
O AI Mode foi lançado no início do ano nos Estados Unidos e chegou a Espanha em outubro. A expansão tem sido cautelosa, mas a estratégia é clara: transformar a pesquisa num diálogo contínuo, em que é possível repreguntar, manter contexto e resumir informação de várias fontes num só ecrã. É neste fluxo que alguns utilizadores começaram a ver cartões rotulados como “Sponsored”, inseridos no final da interação generativa. Não é a velha coluna lateral nem um bloco superior: é publicidade dentro da narrativa da resposta.
Porque é que a Google está a fazê-lo agora
Para a Google, a publicidade continua a ser a espinha dorsal do negócio. Mudar o motor de pesquisa para um formato conversacional sem repensar o modelo de monetização seria, na prática, abandonar a sua vantagem competitiva. Ao deslocar os anúncios para o coração da experiência gerativa, a empresa preserva receita e testa a reação dos utilizadores a um novo enquadramento: menos listas azuis, mais respostas sintetizadas, com patrocinados a acompanhar.
A concorrência também está a empurrar nessa direção. A OpenAI já admitiu que a publicidade pode chegar aos utilizadores gratuitos do ChatGPT, e a Microsoft tem vindo a exibir anúncios no Copilot em mercados selecionados. Se a consulta passa a ser conversacional, a monetização segue-a — e quem aprender primeiro a fazê-lo sem quebrar a confiança do público ganha terreno.
O que muda na prática para quem pesquisa
A inserção de anúncios no final da resposta generativa pode ter efeitos inesperados na forma como os utilizadores navegam. Em vez de percorrer dez links, a pessoa vê um sumário, um ou dois cartões orgânicos com destaque e, logo abaixo, sugestões patrocinadas. É um posicionamento subtil, com o potencial de captar cliques por proximidade ao contexto — mas também levanta questões de transparência e de independência da resposta.
Do ponto de vista da experiência, três pontos merecem atenção:
- Clareza na rotulagem: “Sponsored” tem de ser visualmente inequívoco. Quanto mais a publicidade se confunde com a resposta, maior o risco de desconfiança.
- Relevância contextual: num ambiente conversacional, um anúncio mal colocado quebra o fluxo e pode gerar rejeição imediata.
- Controlo do utilizador: opções para ajustar ou reduzir a exibição de patrocinados no modo de IA serão um sinal de respeito pela escolha individual, especialmente na Europa, onde o enquadramento regulatório é apertado.
Impacto para SEO e para publicidade: menos cliques orgânicos, novas métricas
Para quem vive de tráfego orgânico, a mudança pode deslocar ainda mais a atenção para os resumos do AI Mode, comprimindo a zona de cliques tradicionais. As páginas que alimentam a resposta continuam essenciais — afinal, o modelo tem de ir buscar informação algures —, mas o retorno em visitas pode baixar se o utilizador sentir que “já tem a resposta ali”. Isso significa:
- Conteúdos com dados originais, insights próprios e atualidade ganham relevância: têm maior probabilidade de serem citados e destacados nos cartões adicionais que surgem acima da publicidade.
- Marcas deverão investir na clareza semântica (schema, dados estruturados) e em conteúdos que respondem a perguntas de follow-up, típicas de um diálogo.
- O funil muda: parte da consideração e da comparação pode ocorrer dentro da resposta gerada, obrigando a repensar a medição (impressões por turno de conversa, interações com módulos e cartões, em vez do clique puro e duro).
No lado pago, a conversa fica mais interessante. Um anúncio junto de uma resposta concreta e contextual pode aumentar a intenção de compra e melhorar a taxa de conversão. Porém, exigirá:
- Criativos adaptados ao formato conversacional, com propostas de valor claras em poucas palavras.
- Segmentação baseada na intenção real da query e no histórico de interação do próprio turno.
- Novas salvaguardas de brand safety, para que um anúncio não apareça colado a respostas sobre temas sensíveis ou controversos.
Regulação, privacidade e confiança: a prova europeia
Trazer publicidade para dentro de respostas geradas por IA, no Espaço Económico Europeu, implica navegar consentimentos, propósitos de tratamento e obrigações de transparência. Entre RGPD e a aplicação prática do DMA, a Google terá de garantir que:
- A personalização publicitária respeita o consentimento granular do utilizador.
- A explicação de “porque está a ver este anúncio aqui” é acessível e compreensível.
- Existem controlos claros para desligar personalização e, idealmente, reduzir anúncios no modo conversacional.
Sem estes pilares, a adoção pode emperrar — não por falta de utilidade do AI Mode, mas por erosão de confiança.
Como se preparar já: um roteiro prático
Mesmo sendo um teste, quem trabalha em SEO e publicidade digital pode ganhar vantagem movendo-se cedo:
- Atualize páginas críticas com dados verificáveis, autorias identificadas e fontes claras. A IA tende a privilegiar conteúdos com sinais de credibilidade.
- Revise dados estruturados e FAQs. Quanto mais explícita a relação pergunta–resposta, maior a probabilidade de ser referenciado.
- Prepare criativos curtos e modulares para experimentar em “cartões” conversacionais, com chamadas à ação diretas.
- Reforce a medição de pós-impressão e as métricas de envolvimento. Nem todas as interações no AI Mode serão cliques tradicionais.
- Fortaleça a primeira-party data: num ambiente em que a plataforma sintetiza e mede, a capacidade de ligar sessões, leads e vendas no seu próprio ecossistema torna-se vital.
E agora?
A Google diz que são ensaios e que não há plano de generalização imediata. Ainda assim, o rumo está traçado: a pesquisa caminha para um modelo em que a resposta é o produto e a publicidade viaja com ela. O desafio, para a Google, será equilibrar monetização e confiança.
Para utilizadores e marcas, o jogo passa por exigir transparência, testar cedo e adaptar mensagens ao novo contexto. A pesquisa mudou de forma; quem souber ler a conversa vai chegar primeiro.



































