Ensaio Dongfeng Box Plus: Análise
O Dongfeng Box Plus é o primeiro modelo da marca chinesa Dongfeng a chegar oficialmente a Portugal através do Grupo Salvador Caetano. O objetivo é claro: oferecer mobilidade eléctrica acessível, prática e ajustada ao uso cidade/ periurbano, com um preço de entrada muito competitivo — cerca de 27 500 euros. Mas o Box Plus merece apenas atenção por causa do preço?
Neste artigo encontras:
- Onde se enquadra este Box?
- Interior: surpreendente para o segmento
- Digitalização e ergonomia dos comandos
- Conforto e comportamento de rolamento
- Motor, bateria, carregamento e autonomia — os números que importam
- Modos de condução e gestão de energia
- Equipamento e acabamento: um misto de acertos e cortes
- Utilização real: no quotidiano português
- Comparação de mercado (contexto)
- Conclusão — vale a pena comprar?
Depois de vários dias ao volante e de um ensaio que atravessou o habitual trânsito urbano e algumas deslocações mais longas, a resposta é “não”. Este pequeno eléctrico traz consigo um conjunto de virtudes que justificam que se olhe com atenção para a sua proposta.
Onde se enquadra este Box?
Com sensivelmente 4 metros de comprimento e 1,8 m de largura, o Box Plus posiciona-se no segmento B dos citadinos com ambições práticas. O desenho evita exageros e aposta numa linguagem limpa, quase «patusca», que torna o carro mais compacto do que as suas medidas sugerem. Há pormenores interessantes, como as portas sem moldura, e uma paleta de cores vibrantes (que nesta unidade de teste foi substituída por um branco contrastado com preto), pensada para destacar o modelo no trânsito urbano.
A ideia é simples: um carro fácil de estacionar, com boa habitabilidade, equipamentos relevantes e autonomia suficiente para a esmagadora maioria das deslocações diárias. Quando analisamos a proposta global — dimensões, espaço interior, autonomia e preço — percebemos que o Box Plus foi desenhado para cumprir precisamente esse papel.
Interior: surpreendente para o segmento
“Inside the Box” é um bom resumo. O habitáculo surpreende pela generosidade do espaço: quatro adultos viajam com conforto, sobretudo em termos de pernas e cabeça no banco traseiro. O piso plano ajuda nesse sentido e contribui para a sensação de amplitud e funcionalidade. O banco do meio traseiro existe, mas é mesmo um lugar do meio — estreito e menos prático para longas viagens.
Os materiais acompanham o posicionamento do modelo: plásticos rígidos predominam, como é habitual nesta faixa de mercado, mas a Dongfeng recorre a elementos em napa que elevam a sensação de qualidade e tornam o espaço interior mais acolhedor. O estilo é, inevitavelmente, marcado por um cunho oriental — que pode agradar ou não aos gostos europeus — mas é inegavelmente simpático.
A praticidade também está bem resolvida: vários e inteligentes compartimentos, uma bagageira de 326 litros que se expande até 945 litros com os bancos rebatidos, e um piso interior bem pensado. Há, contudo, falhas notórias: a ausência de uma chapeleira para ocultar a bagagem é um “lapso” que compromete a segurança e a estética; o rebatimento do encosto traseiro só é possível na totalidade (sem opção de 60/40), uma limitação de flexibilidade; e, incompreensivelmente, não existe uma porta USB dedicada para os passageiros de trás. Em 2025, estes pormenores são relevantes.
Digitalização e ergonomia dos comandos
O painel digital de instrumentos é reduzido — apenas 5 polegadas — e, nessa dimensão, acaba por sacrificar legibilidade: os caracteres são pequenos e a luz emitida é demasiado forte, causando desconforto sobretudo à noite, mesmo com a redução de brilho.
O sistema central de infoentretenimento é mais convincente: um ecrã tátil HD de 12,8 polegadas, intuitivo e com uma interface até simpática — o detalhe do “gatinho” que nos dá os bons dias é agradável e humaniza a experiência. Há, porém, momentos estranhos: a voz de sistema, com forte sotaque chinês, que admoesta para «não olhar para o ecrã», é carismática mas acaba por sublinhar a necessidade de polimento na localização do software.
Controlo de vidros e botões tem ergonomia discutível: alguns comandos não são intuitivos e exigem habituação. Pequenos ajustes de layout e de software melhorariam muito a sensação de coerência entre interface e utilização.
Conforto e comportamento de rolamento
O Box Plus assume-se como um carro urbano por excelência. A suspensão está claramente afinada para o conforto em cidade: filtra bem as irregularidades típicas de pavimentos com pouca qualidade e oferece um rolamento macio e refinado para o segmento. Esta elasticidade, porém, tem um lado menos positivo: em situações em que exigimos maior estabilidade — mudanças de tracção rápidas, curvas tomadas com ritmo — sente-se alguma «flutuação» na carroçaria.
A direção é leve e muito agradável na manobra e em velocidades baixas, exactamente onde é mais necessária. Contudo, à medida que se aumenta o ritmo, a assistência eléctrica parece perder progressividade e o volante torna-se “mais duro” do que seria desejável, sacrificando um pouco a precisão. Em percurso urbano e em condução descontraída o Box é impecável; para quem procura uma condução mais exigente, a afinação revela limites.
Motor, bateria, carregamento e autonomia — os números que importam
O coração eléctrico do Box Plus é composto por um motor de 70 kW (95 cv) e 160 Nm de binário. Não é uma cifra assombrosa, mas é adequada ao propósito urbano e ao peso e dimensões do carro. Em termos práticos, a aceleração inicial é suficiente para entrar em rotinas de tráfego e para manobras de ultrapassagem em estrada secundária, embora com quatro adultos e carga a performance comece a ser sentida como algo justa — previsível para o segmento.
A bateria é de tecnologia LFP com 42,3 kWh de capacidade útil. Este tipo de química privilegia durabilidade e segurança, sacrificando um pouco de densidade energética face às NMC usadas noutros modelos. A Dongfeng anuncia 310 km WLTP de autonomia e, no nosso ensaio prático, o consumo médio observado foi bastante eficiente: 10,7 kWh/100 km. Com estes dados, os 310 km tornam-se plausíveis em condições favoráveis (condução citadina, temperaturas amenas, pouca carga extra).
Quanto ao carregamento, o Box Plus aceita AC até 6,6 kW e DC até 87,8 kW. Para efeitos práticos:
-
Carregador AC a 6,6 kW: 42,3 kWh / 6,6 kW ≈ 6,4 horas para uma carga completa (estimativa teórica);
-
Carregamento DC até 87,8 kW: uma carga até 80% levaria cerca de 20–25 minutos, dependendo do perfil de carga da bateria e do estado inicial.
Estes números colocam o Box Plus numa posição muito sólida no que se refere à usabilidade diária: uma noite de carga em wallbox resolve a maioria dos dias, e o carregamento rápido em estação pública permite recuperar autonomia em meia hora quando necessário.
Modos de condução e gestão de energia
O Box Plus oferece modos Eco, Comfort e Sport, bem como três níveis de intensidade de regeneração. Os modos de condução alteram a resposta do pedal e a gestão da regeneração; nenhum dos níveis de regeneração imobiliza o carro por completo em desaceleração — isto pode decepcionar quem procura uma experiência “one-pedal” completa, mas por outro lado facilita uma transição mais natural para condutores menos habituados a eléctricos.
Na prática, a configuração Eco favorece a autonomia (reduz sensibilidade do acelerador), o Comfort fornece a experiência mais equilibrada para o dia-a-dia, e o Sport torna a resposta mais vigorosa, embora sem transformar milagrosamente as cifras de performance.
Equipamento e acabamento: um misto de acertos e cortes
O Box Plus vem bem equipado para o segmento: ecrã central grande, ar condicionado, soluções de conectividade e espaço interior muito competitivo. No entanto, há pequenas economias que surpreendem negativamente: a ausência de chapeleira para a bagageira, a falta de USB traseiro, o painel de instrumentos de reduzidas dimensões e o problema de legibilidade à noite são exemplos. Também existem detalhes de acabamento menos bons junto aos pilares que denunciam um controlo de qualidade inteligente mas ainda com margens de melhoria.
Em resumo: bom equipamento para o preço, com alguns “pormenores de afinação” por corrigir.
Utilização real: no quotidiano português
Para o utilizador típico que vive na cidade ou no perímetro urbano, o Box Plus encaixa muito bem. O preço e a autonomia tornam-no uma alternativa sólida a scooters eléctricos ou a carros a combustão antigos. O carro é fácil de estacionar e, com uma tomada doméstica ou wallbox, o carregamento noturno resolve a maioria das necessidades.
Para famílias pequenas ou casais que fazem deslocações regulares mas não extensas, o Box Plus tem argumentos práticos: bagageira útil, espaço a bordo, equipamentos centrais e autonomia suficiente. Para quem pensa em viagens frequentes longas com quatro ocupantes e bagagem, pode ser necessário planear paragens de carregamento e aceitar que a performance será moderada.
Comparação de mercado (contexto)
No segmento B eléctrico há vários rivais que apostam na mobilidade urbana a preços acessíveis. O Box Plus destaca-se pelo equilíbrio entre autonomia real e preço, bem como por um interior mais pensado do que alguns concorrentes mais básicos.
A avaliação da compra, contudo, depende sempre das prioridades: quem procura máxima tecnologia de assistência à condução ou acabamentos supra-premium pode preferir ofertas de marcas mais estabelecidas, enquanto quem procura praticidade e custo total de utilização reduzido vai encontrar no Box Plus uma alternativa muito bem colocada.
Conclusão — vale a pena comprar?
O Dongfeng Box Plus é, acima de tudo, uma proposta honesta. Não promete ser mais do que aquilo que é: um pequeno eléctrico urbano com boa autonomia, confortável, eficiente e com um preço que reduz a barreira de entrada para a mobilidade eléctrica. Tem alguns cortes de equipamento e pormenores de acabamento que podem incomodar compradores muito exigentes, mas também apresenta um conjunto de virtudes reais — espaço, consumos e facilidade de uso — que o tornam uma alternativa credível no mercado português.
Se o seu padrão de utilização é urbano/ periurbano, com carregamento doméstico ou no trabalho, e procura um carro prático, económico e fácil de viver, o Box Plus é uma proposta que merece ser considerada com atenção. Para quem faz muitas viagens longas com a família e precisa de rotações e performances mais musculadas, pode valer a pena olhar para modelos com baterias maiores ou para híbridos plug-in, dependendo da disponibilidade de carregamento.
Entre forças do Box Plus:
-
Relação preço/serviço muito atractiva para um eléctrico com 310 km WLTP;
-
Espaço interior surpreendente para as dimensões exteriores;
-
Consumos reais muito eficientes (c. 10,7 kWh/100 km no nosso ensaio);
-
Equipamento central amplo e ecrã tátil de grandes dimensões;
-
Bateria LFP robusta e carregamento rápido até cerca de 87,8 kW.
Limitações a corrigir:
-
Painel de instrumentos pequeno e demasiado luminoso;
-
Falta de chapeleira da bagageira e ausência de USB traseiro;
-
Rebatimento dos bancos apenas na totalidade (sem 60/40);
-
Direcção que perde progressividade em velocidade;
-
Alguns acabamentos e ergonomia de comandos com margem de melhoria.
FAQ rápida
Qual a autonomia do Dongfeng Box Plus?
A Dongfeng anuncia 310 km WLTP; no nosso ensaio prático verificámos consumos médios de 10,7 kWh/100 km, valores que tornam a autonomia muito plausível em utilização urbana.
Quanto tempo demora a carregar?
Com um carregador AC de 6,6 kW, cerca de 6–7 horas para uma carga completa. Em DC, com potência até 87,8 kW, uma carga rápida até 80% deve demorar na casa dos 20–25 minutos (dependendo das condições da bateria).
É confortável para quatro adultos?
Sim. O Box Plus surpreende pela habitabilidade traseira e pelo piso plano; quatro adultos viajam com conforto em deslocações curtas e médias.
Tem tomada USB para os passageiros traseiros?
Na unidade testada não havia USB para os ocupantes de trás — uma omissão que a marca poderá corrigir em futuras versões.
O Box Plus é seguro?
Não há dados Euro NCAP específicos neste ensaio. Recomendamos confirmar os sistemas de assistência e airbags na versão comercial que vai comprar.











Sem Comentários! Seja o Primeiro.