Análise a Resident Evil Village: o regresso de Ethan Winters

Quando cheguei a Resident Evil Village nem sabia o que esperar. Tinha jogado as duas demos apenas umas semanas antes, mas nem uma, nem outra me deram qualquer indicação do que estaria à minha espera na versão final. Contudo, aquilo pelo que passei pelo jogo inteiro foi uma enorme mistura de sentimentos e retrospetivas, sim, isso mesmo, retrospetivas.

Village oferece um estilo de jogo semelhante ao Resident Evil 4, um jogo com mais de uma década, no entanto, este estilo é combinado com os avanços tecnológicos introduzidos em Resident Evil 7 incluindo a sua infame câmara em primeira pessoa. E acaba por ser uma ótima combinação ainda que tenha as suas falhas.

Ethan Winters, o protagonista de Resident Evil 7, regressa ao papel principal e desta vez a equipa por detrás do jogo fez-lhe justiça, passando a ser uma personagem que começa agora a ganhar o seu estatuto de ícone na franquia, ainda que esteja um pouco longe disso. Infelizmente para Ethan a sua aventura entre pacóvios psicóticos nos pântanos do Louisiana transformou-se numa luta contra mulheres sedentas de sangue, lobisomens, gárgulas, mortos-vivos e homens-peixe algures na Europa de Leste.

A variedade de situações e cenários em que somos colocados foi algo que tive em alta consideração quando finalmente acabei a minha playthrough de aproximadamente onze horas. Desde o imponente Castelo Dimitrescu com os seus salões imaculados e masmorras decrépitas até à zona piscatória com edifícios a caírem de podre devido à falta de manutenção. O ambiente do jogo fez-me relembrar imenso Resident Evil 4, mas com uma localização que nos transmite Transilvânia. Além disso, também me relembrou de outros títulos que não têm qualquer relação com Resident Evil, tais como: Bloodborne, Elder Scrolls V: Skyrim e até The Hobbit. E não digo que tenha sido algo de mau, a meu ver foi uma experiência bastante única poder fazer estas comparações.

Dimitrescu e a Internet

Um problema que se apresentou após 4 ou 5 horas de jogo foi o quão curto foi o segmento relativo a Alcina Dimitrescu e as suas três filhas. Após a enorme exposição aos média que estas 4 personagens tiveram e até 2 demos relativas ao seu segmento, seria de esperar que tivessem mais presença no produto final. É muito possível que a Capcom não estivesse à espera do enorme feedback positivo que a Internet mostrou relativamente a estas 4 personagens, além disso, as três filhas de Dimitrescu têm todas a mesma fraqueza e as batalhas contra elas acabam por ser curtas e pouco desafiantes.

Quanto à própria Dimitrescu, assim que entrei no seu luxuoso lar já esperava a sua presença como inimigo stalker a partir de determinado ponto, tal como Mr. X em Resident Evil 2. Por outro lado, confesso que fiquei dececionado com a facilidade com que é possível escapar e com a falta de suspense que ela transmite, o que contraria com o Tyrant já mencionado. Quanto à atuação admito que as duas atrizes por detrás desta mulher com 3 metros de altura fizeram um ótimo trabalho na sua representação, ainda que infelizmente a sua aparição só faz um quarto da história do jogo.

Ambiente e Mundo

A Capcom já é conhecida por construir os seus cenários com imensos detalhes e este jogo não é exceção. Como Village faz parte do nome do jogo não chegamos só a explorar a parte central da vila e o Castelo que se ergue sobre ela, existem ainda mais localizações, cada uma distinta da outra. Existe uma localização a uma altitude mais elevada que mostra maior presença de neve e que contrasta diretamente com a vila piscatória cuja presença de neve é mais reduzida e acaba por dar a sensação que fomos parar à cidade do lago em The Hobbit.

O Castelo Dimitrescu em si, tem um aspeto muito gótico no seu exterior que nos dá a sensação de que uma força invisível habita aquele interior e, no entanto, este acaba por contrastar imenso devido à decoração que mais se assemelha ao século XVIII e que foi extremamente bem modelada pela equipa.

A vila é a zona principal do jogo e é a localização pela qual passamos sempre. Esta apresenta casas com mais de meio século de existência, algumas delas com óbvias manutenções improvisadas ao longo dos anos. Trata-se maioritariamente de uma comunidade à base de agricultura e criação de gado pequeno, com uma igreja e uma oficina à mistura e é a representação de muitos locais idênticos na vida real. Esta última característica juntamente com o facto de o horror de Resident Evil ser à base da ciência e não do sobrenatural transmite-nos aquela sensação inquietante de que algo do género pode acontecer no nosso mundo.

Personagens e Inimigos

Como de costume em Resident Evil, os amigos são poucos e os inimigos imensos. Para além da família Dimitrescu, Ethan tem ainda que enfrentar Donna Beneviento, uma ermita com gosto por marionetas, o desgraçado homem-peixe Salvatore Moreau, o mecânico lunático Karl Heisenberg, cuja voz pertence a Neil Newborn (o talentoso ator por detrás de Elijah Kamski em Detroit: Become Human) e a bruxa enigmática Miranda.

Como se isso não bastasse a Capcom decidiu adicionar vários tipos de inimigos ao jogo, em contraste a Resident Evil 7 cujos inimigos comuns eram criaturas chamadas de Molded. Assim encontramo-nos com lobisomens chamados de Lycans, vários tipos de Zombies e até gárgulas que todos combinados dão a Resident Evil Village uma enorme variedade de inimigos e um quebra-cabeças sobre o que fabricar com os escassos recursos que temos à mão, e que várias vezes colocaram-me a pensar: “Será que deveria de fabricar mais cartuchos de caçadeira ou será que devo fabricar mais granadas? Se calhar também podia comprar cartuchos, esquecer as granadas e fazer antes um “kit” de primeiros socorros!?”.

Por falar em compras, um dos poucos amigos que temos é Duke, o novo mercador com um enorme apetite por comida requintada e vinhos raros. Este novo personagem oferece vários bens que são cruciais à nossa sobrevivência durante a aventura mas também serviços de melhoria de armas e ainda um serviço de cozinha, caso tenhamos os ingredientes necessários para fazer aquele peixe com ervas aromáticas ou a ciorba de porc à moda romena. Tudo isto tem um custo monetário que pode ser pago com os espólios que vamos recolhendo, o lado positivo é que Duke traz uma localização segura e presença que nos distraem temporariamente dos horrores que nos esperam ao virar da esquina.

Terror e Ação

Resident Evil Village é uma mistura entre o género survival-horror com o género de ação. A presença de survival-horror é mais transmitida em sobrevivência com suspense durante grande parte do jogo. Mas admito que um segmento em particular foi tão aterrador e bizarro que me deixou com arrepios e colado à cadeira durante uma boa meia-hora. Claro que também não seria um Resident Evil sem ter puzzles a completar ao mesmo tempo que esperamos que algo de mau aconteça assim que o resolvermos.

A ação também está bastante presente, e talvez um pouco mais do que aquilo que devia estar num jogo deste tipo. Um segmento em particular fez-me sentir como se tivesse deixado Resident Evil e tivesse começado a jogar uma campanha de Call of Duty ou de Battlefield com monstros macabros à mistura. Fora isso a ação está mais presente em certas boss fights, que acaba sempre por cativar mais a nossa atenção.

Veredito

Resident Evil Village faz-nos sentir como se fôssemos visitar uma aldeia rústica na Europa de Leste, mas, em simultâneo, todas as superstições que têm nessas localizações são verdadeiras e estão ali mesmo atrás de nós. A certo ponto senti estar numa aldeia fantasma com olhares invisíveis mesmo na minha nunca. O que este novo título transmite é algo que já estava em falta na franquia à demasiado tempo. Se Resident Evil 7 nos deu uma enorme propriedade para explorar, Resident Evil Village deu-nos literalmente uma vila.

O jogo pode não ter aquele terror psicológico pelo qual o seu antecessor ficou conhecido, e ainda que a história pareça que passa um pouco depressa demais em certas partes acaba por compensar com as reviravoltas e descobertas que são feitas sobre o seu variado elenco. Por isso, Resident Evil Village é digno de ser uma sequela de Resident Evil 7 e é definitivamente digno de mais do que uma playthrough.

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